Julho de 2018

Em julho, a comitiva dos Pés Descalços ficou a postos, esperando uma “janela” que lhe permitisse concluir as apresentações da “Rapsódia Caiçara” nas comunidades tradicionais. Para chegar até a maior parte delas, especialmente as “de trás” da ilha, só pelo caminho do mar. Mas para se aventurar nessa estrada não basta querer.... São Pedro tem que ajudar!

É claro que a chuva complica muito o transporte de nossa comitiva, que além de pessoas leva um cenário cheio de tecidos, bonecos e instrumentos que não podem se molhar, mas o que faz toda a diferença no - final das contas - para se chegar nesses locais distantes é o vento. O sudoeste é o mais temido, mas na Ilha da Vitória o vento leste também preocupa por sua posição geográfica.

Quantas idas para as comunidades tradicionais foram marcadas e desmarcadas por causa do tempo ruim! Os caiçaras são extremamente rigorosos e responsáveis com relação às condições climáticas, e não se arriscam no mar em hipótese alguma. Quando dizem não é não! 

Mas esse medo tem razão de ser. Não há um único caiçara das comunidades afastadas que não possua um parente, um amigo ou um conhecido que não tenha se acidentado ou morrido num naufrágio num dia de mar ruim.

Respeitar o mar é um dos primeiros ensinamentos que um pai passa para seu filho. E uma coisa é certa: um caiçara nunca se engana em sua previsão do tempo!

Mas quando o tempo abriu, finalmente a comitiva partiu na canoa do Paulo pescador para a Praia da Serraria, ele mora lá. Uma facilidade no acesso a esse lugar foi o fato de poder embarcar e desembarcar na praia. A canoa chegou até a beiradinha da areia, e as coisas foram tiradas e levadas para a escola.

Só que chegar à comunidade é apenas parte da tarefa. O fundamental é atrair o público, afinal uma apresentação teatral é algo inusitado nessas paragens. Foram usadas algumas estratégias: a colaboração do menino Rafael, morador local, que saiu chamando as crianças, e também um cortejo musical com o cantador Zeca Xareu à frente, entoando seu violão. Depois do chamamento, todos vieram, os pequenos e os grandes. A diversão e a emoção correram soltas!

Mas nessa etapa da itinerância, depois de Serraria, ainda tinham duas comunidades para serem visitadas, e a próxima foi a Ilha de Búzios. Para chegar lá, a comitiva usou a batera do Beto, que nasceu em Búzios e mora em Serraria. Diferentemente de Serraria, a Ilha de Búzios, assim como a de Vitória, não tem praia. Ambas são cercadas por costões de rocha, que são bem desafiadores tanto para o embarque quanto para o desembarque.

Esse processo se dá em etapas, como se pode ver na foto: a batera chegou nas proximidades do costão, então as pessoas e materiais foram transladados em uma chata – certo tipo de embarcação pequena - e daí foram empurrados através das estivas até uma parte mais alta - no nível onde normalmente são construídos os ranchos – locais em que os pescadores guardam suas embarcações.

As estivas são estruturas de madeira que fazem o papel de escadas, interligando e permitindo o acesso de canoas, chatas ou pessoas a locais altos ou trazendo-os de cima para o mar. Isso pode ser feito puxando através de cordas por cima ou empurrando as embarcações por baixo. Na Ilha de Búzios, vive uma comunidade pequena, e as pessoas foram chamadas de casa em casa. Todos que estavam por lá vieram assistir a Rapsódia Caiçara. Alguns moradores estavam viajando. Quem viu a peça achou uma surpresa bem gostosa! Para ir de Búzios a Vitória só de barco mesmo.

Assim, a comitiva foi transportada pelo pescador Giovani, morador de Búzios, até a Ilha de Vitória. Em virtude das grandes dificuldades de desembarque nesse local, uma chata foi utilizada para levar pessoas e materiais através da estiva até uma parte mais alta, chamada por eles de porto. Mas no caso de Vitória, depois desse desembarque ainda há uma longa escadaria a ser vencida até chegar às moradias e à Escola Municipal da Ilha de Vitória, onde a peça foi apresentada. 

O Pés no Chão tem profundos laços de amizade com a comunidade da Ilha de Vitória. Seu primeiro vídeo-documentário sobre comunidades tradicionais foi feito lá, através do ProAC- Secretaria de Estado da Cultura. Depois, outro projeto de artesanato caiçara, viabilizado pelo Ministério da Cultura, também foi direcionado aos caiçaras desse local que na ocasião não estavam envolvidos em atividades pesqueiras.

Essas iniciativas promoveram uma longa convivência, e consequentemente, o fortalecimento dos vínculos de confiança e de afeto. Tudo é muito familiar em Vitória!

Em todas as comunidades visitadas, depois das apresentações teatrais foram feitas as Oficinas de Bonecos com as crianças e adolescentes. A garotada se envolveu muito com a atividade, ficando atenta e focada no trabalho.

Sair da Ilha da Vitória foi uma aventura a parte. Tudo estava alinhado para que o pescador Hilário levasse a comitiva de volta para Ilhabela. Só que não. O tempo estava prestes a virar e, segundo Hilário, não daria tempo do barco chegar com segurança em Ilhabela. Então, Hilário disse que não daria para sair. Como o grupo tinha compromissos de trabalho naquele mesmo dia na cidade, foi mobilizada a equipe de produção solicitando que fosse enviada uma lancha rápida, que retirasse a comitiva de Vitória. O percurso que o barco de Hilário faria em três horas foi feito em uma pelo flexboat. Isso não significa que tenha sido uma viagem tranqüila, pois o mar já estava muito agitado e o vento bem forte. No caminho de volta, ficou claro para nossos viajantes que a decisão do pescador foi totalmente acertada, pois sua embarcação não teria condições de enfrentar aquele mar ruim!

A janela do tempo fechou novamente, e a última viagem da fase dos eventos “Gente Daqui”, que será para a comunidade do Bonete, precisou ser adiada. Aguardam-se condições climáticas favoráveis!

No contexto das atividades das "Jornadas da Cultura Caiçara", foi feita em julho uma entrevista com o Sr. Roberto, pescador da Praia do Bonete que mora hoje no Bairro do Curral. Ele falou sobre diversas coisas, dentre elas: os pasquins, a pesca da tainha, o "entralhamento" da rede, e suas memórias na Praia do Bonete. A entrevista está sendo editada e será publicada em nosso Banco de Dados.

Para que as visitas às comunidades tradicionais fossem viabilizadas, foi imprescindível a colaboração da Secretaria Municipal de Educação e a ajuda do professor Adriano Leite, responsável pelas escolas onde a Rapsódia Caiçara foi apresentada.


O Projeto Memórias Reveladas tem patrocínio da Petrobras por meio do Programa Petrobras Socioambiental 

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