Agosto de 2018

Depois de cinco tentativas frustradas, saiu enfim a comitiva rumo ao Bonete, a última comunidade tradicional a ser visitada pela trupe dos Pés Descalços na primeira etapa do projeto. Acontece que o tempo é o grande senhor da vida dessas populações, e não adianta querer contrariá-lo.

 


De canoa a motor, demorou mais de uma hora para chegar lá, e tudo precisou ser bem embalado porque molha mesmo. Gente e coisas.

 

Com tudo protegido por plástico, nossa trupe partiu para a Praia do Bonete, na costa sul do arquipéago.

 

Dizer que o tempo estava firme é faltar com a verdade. Mas, entre um chuvisco e outro, foi possível juntar muita gente para assistir a Rapsódia Caiçara...

 

...e depois montar o grupo de alunos que participou da Oficina de Bonecos.

 


No outro dia, bem cedinho, quando o mar ainda estava lisinho, o pessoal voltou. E assim foi concluída a primeira etapa do projeto: os eventos Gente Daqui.

 


Na segunda etapa, é feito o retorno às escolas visitadas anteriormente pela equipe do projeto. Foi na Escola Profª Dercy de Andrade de Castro, no bairro do Portinho, que começaram as Jornadas da Cultura Caiçara. A turma de 5ª série, que freqüenta o período integral, recebeu com muita curiosidade a proposta de participar das Oficinas de Contação de Histórias.

 

Um tema instigante para a garotada foi o naufrágio do navio Concar. Ele foi comentado pelo avô de uma aluna dessa escola em seu depoimento, registrado em vídeo pela equipe do projeto. Roberto era menino na época, mas se lembra de seus familiares contando de terem entrado no navio no período em que ele ficou encalhado.

 

O cargueiro espanhol Concar se perdeu numa forte tempestade na Ponta da Piraçununga, lado leste de Ilhabela, próximo à Ponta da Pirabura. Seu naufrágio ocorreu em 29 de outubro de 1959. Antes disso, permaneceu encalhado na costeira por 22 dias. Sua a carga incluía azeite comestível e extrato de tomate. Os caiçaras, a bordo de canoas, tinham acesso fácil ao navio encalhado nas pedras da costeira. Assim, usaram o azeite para abastecer as lamparinas (achando que era óleo) e o extrato de tomate como tinta para pintar as paredes das casas. O cargueiro trazia também um contrabando de máquinas de costuras, azulejos pintados à mão, licores, baralhos, sabonetes, perfumes e lambretas.

No decorrer das Oficinas, foram apresentadas para os alunos fotos antigas do cargueiro, um mapa dos naufrágios em Ilhabela, um pequeno texto sobre o triste destino do Concar, e também um vídeo com o depoimento do Roberto, o avô da aluna Ana Carolina, especificamente da parte de suas memórias relacionadas ao naufrágio do navio.

 

Este conteúdo despertou um grande interesse, e instigou os alunos a direcionar sua Contação de História para diferentes aspectos do naufrágio do Concar.

 

Os alunos foram divididos em três grupos de trabalho. A criação dos bonecos foi feita utilizando bexigas, cobertas por cola, que as deixaram bem firmes para posteriormente serem pintadas e receberem suas feições.

 

Em seguida, foi colocado o cabelo. Enquanto os bonecos secavam, foi criada uma narrativa em cada grupo, para ser apresentada na Contação de História ao final das oficinas.

A finalização dos bonecos é demorada, pois são muitos detalhes das roupas e adereços que precisam ser adaptados aos personagens de cada um na Contação.  Cola quente, tecidos, linha, agulha, lãs, todos querendo deixar seus bonecos muito originais, super adequados ao seu papel na história.

 

Uma delas partiu de um Pasquim, criado por caiçaras na época do naufrágio do cargueiro.  Pasquim era uma forma de comunicação, geralmente em forma de verso, usada pelos caiçaras mais antigos. Há poucos registros sobre eles, uma vez que eram passados de boca em boca ou através de papéis escritos a lápis.  Todas as Contações misturaram fatos reais e ficção. Numa delas, os personagens (bonecos) incluem um Comandante da Marinha Brasileira, tripulantes e passageiros.

 

Outra relata de forma bem fantasiosa e criativa o acidente. O navio tem velas, e entre seus passageiros está o jogador de futebol Cristiano Ronaldo, uma perfumista famosa, uma artista plástica consagrada, além do capitão Niomar.

 

A terceira Contação envolve também uma perfumista e um jogador de futebol, só que menos famoso que o Cristiano Ronaldo.  Além disso, o navio transporta uma atriz famosa e seu roteirista. O capitão, depois do acidente, resolve mudar de vida e adota o Bonete como lar.

 

Ensaio, ensaio, ensaio.... Mas esperem um pouco mais, pois a apresentação é só em setembro!


O Projeto Memórias Reveladas tem patrocínio da Petrobras por meio do Programa Petrobras Socioambiental 

 

 

 

 

 

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