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Janeiro de 2019

Neste início de ano, após as pausas de natal e ano novo, aproveitamos para relembrar e valorizar a participação de três personagens caiçaras, avós de alunos do projeto. Eles revelaram suas preciosas memórias para enriquecer as baú de histórias que meninos e meninas usaram para transformar em peças de bonecos para mostrar aos colegas de escola.

A intenção principal do projeto é reforçar a importância da Cultura Caiçara. Isso se dá tanto através de ações de resgate dos saberes tradicionais, que os mais velhos praticam ou guardam em suas memórias, como de disseminação desses conhecimentos para as gerações atuais.

Esse tem sido o caminho percorrido até essa etapa do projeto: identificar parentes caiçaras mais idosos dos alunos e verificar se eles têm interesse e disponibilidade de compartilhar alguns fatos marcantes de suas trajetórias de vida, sejam eles fatos pitorescos, engraçados, dramáticos e até mesmo trágicos.

A vida do caiçara, devido à sua intensa relação com a natureza, sempre esteve exposta a perigos naturais. O mesmo mar que oferta o alimento para os pescadores, pode criar situações que põem em risco suas vidas. Uma mudança repentina de vento pode dificultar uma viagem ou até mesmo afundar uma embarcação. Assim, os caiçaras têm vivido incríveis aventuras ao longo do tempo, e é de boca em boca que essas histórias chegam até nós.

 


Ana Carolina


Seu Robertinho

 

Foi através de nossas pesquisas que chegamos ao Seu Robertinho, avô da Ana Carolina, aluna do 5º Ano da Escola Municipal Dercy Castro. Ao revelar suas memórias para a equipe do projeto, ele pode contar para a sua neta e para seus colegas de classe e de escola, diversas lembranças, desde brincadeiras de antigamente,  passando pelos mais diversos tipos de pesca e principalmente pelo grande acontecimento de sua infância, que foi o naufrágio do Navio Concar, um cargueiro espanhol, que afundou nas águas de Ilhabela em 1959. Sua neta não sabia nada do acontecido e muito menos que seu avô tinha, quando menino, feito várias viagens para o local do encalhe do navio para coletar mercadorias que escapavam da embarcação e ficavam boiando à deriva.

 


Juan Salinas


Seu Lorival Salinas

 

Já o Seu Lourival, avô do menino Juan Salinas, aluno do 5º Ano da Escola Sebastião Leite, ainda hoje coloca sua rede para capturar, enchovas, carapaus, olhos de cão, sororocas e outras espécies de peixe. Esse saber tradicional, de domínio das técnicas de pescaria, é essencial para sua vida. Ele nos diz, “...se não puder pescar, eu com certeza vou ficar doente”. Além disso, seu Lourival contou a história de um tubarão tintureira de galha preta, que foi pescado em Ilhabela. Quando os pescadores foram limpar o peixe, acharam um braço humano em sua barriga. Com todo  respeito, eles colocaram o braço em uma caixa de papelão e o enterraram no cemitério do bairro do São Pedro.

 


Maria Fernanda


Seu Mário

 

O nosso terceiro personagem é o Seu Mario, avô da Maria Fernanda, aluna da Escola Maria Thereza Vidal. Ele é pescador, nascido na Ilha da Vitória, ilha que integra o Arquipélago de Ilhabela, local onde passou sua infância e juventude e onde viveu fortes emoções ligadas ao mar e à pesca. Na idade adulta, veio com a família para morar na ilha principal, sede do município. Seu Mario abriu sua caixa de memórias e descreveu as técnicas que ele e outras crianças usavam para pegar lavadeiras (libélulas) e amarrá-las em uma varinha de bambu, para brincar com seu voo. Contou, também, como capturar baratinhas da costeira, utilizando uma latinha com restos de peixe dentro dela e como as usava como isca para pesca de vara.

E as histórias de seu Mario não pararam por aí. Ele também contou sobre um tubarão que atacou uma canoa de voga em que seus antepassados navegavam. Os pescadores viajavam para Ubatuba e durante a viagem iam curricando (técnica de pesca) com linha e isca. Nesta ocasião, estavam pescando um peixe chamado bonito. Esse peixe tem muito sangue, e isso  acabou atraindo o tubarão. Mas ao atacar e virar a canoa, o tubarão foi atrás dos bonitos e poupou os pescadores. Seu Mario tinha tantas histórias que ainda deu tempo para contar sobre uma cambeba, que é como eles chamam o tubarão martelo, que ficou presa em sua rede. Quando se aproximaram daquela fêmea, que tinha mais de 100 quilos, perceberam que ela estava tendo filhotinhos. Todos foram soltos pelos pescadores.

Por hoje é só, mas em 2019, teremos muitas outras histórias que serão contadas para nós e principalmente para os mais novos, para que eles tenham a oportunidade de ouvir uma voz que vem de bem longe, não em distância, mas sim no tempo. E a partir das histórias que serão contadas, esse tempo irá se perpetuar.

 

 

O Projeto Memórias Reveladas tem patrocínio da Petrobras por meio do Programa Petrobras Socioambiental 

 

 

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