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Junho

Chegar à Ilha de Vitória é um desafio, pois é a comunidade tradicional caiçara mais distante de todas, e para chegar lá é preciso fazer uma viagem de barco de quase 5 horas saindo de Ilhabela. Como no momento da partida ainda estava escuro, foi no caminho, lentamente, que o céu revelou suas cores, de uma beleza indescritível.

Jornada Buzios

Vitória não tem praia, ela é cercada por um costão rochoso onde o mar bate sem dar trégua, e para atingir a área habitada da ilha é preciso subir uma escada imensa e muito íngreme, o que não é nada fácil. Como foram muitos dias de Jornada, tinha muita coisa pra levar: de materiais para as oficinas até mantimentos, fora roupa e a estrutura de acomodação para os pernoites. Ainda bem que a comunidade ajudou no translado. Nesse lugar a equipe ficou alojada na escola, pois não havia outra opção. A Secretaria de Educação abriu uma exceção em Vitória, pois atualmente essa prática não está sendo permitida.

Jornada Buzios

Chegando lá, o primeiro contato foi com a professora Bianca, para entender a lógica das aulas na escola, e evidentemente com os alunos. Nas comunidades isoladas é sempre um frisson acontecimentos como esse, e a equipe quer cativar os alunos logo na chegada, pois serão muitos dias de trabalho intenso. Mas, na realidade, sempre o primeiro passo da Jornada da Cultura Caiçara, tanto desta quanto das demais, é o rastreamento dos potenciais depoentes, os parentes mais idosos dos alunos, que contarão suas memórias, lembranças ou histórias que se transformarão nas encenações com teatro de bonecos ao final da Jornada.

Jornada Buzios

A depoente foi Dona Dita, uma pessoa muito querida e já conhecida de todos do Pés no Chão. Ela participou do vídeo-documentário “Os Saberes do Fazer – Ilha da Vitória” – realizado pelo Pés no Chão em 2008 - através do ProAC-Secretaria de Estado da Cultura. Ele abordou a vida e os conhecimentos de pescadores e dos antigos da comunidade tradicional da Ilha da Vitória. Além disso, Dita e vários outros caiçaras que não estavam envolvidos em atividades pesqueiras, participaram, entre 2010 e 2012, do Projeto Artesãos da Ilha, apoiado pelo Ministério da Cultura. A iniciativa promoveu, através do artesanato, a sustentabilidade econômica dos caiçaras da Ilha da Vitória, associada à sustentabilidade ambiental e à manutenção da cultura tradicional caiçara.

Jornada Buzios

Em sua entrevista, registrada em vídeo pela equipe da Jornada, Dona Dita contou várias histórias, sendo que duas delas se transformaram nas Contações com bonecos encenadas pelos alunos. Uma fala sobre um homem rabugento que morria, e quando era velado pela comunidade voltava à vida, e outra sobre outro homem que via uma santa dentro de uma gruta que ora aparecia, ora desaparecia.

Foram muitas horas de conversa prazerosa, de Dona Dita bordando, mostrando seu acervo de fotos antigas da família, e também dando subsídios para a montagem da Árvore Genealógica da Ilha da Vitória.

Jornada Buzios

A interação da equipe com Seu Zé e Dona Amélia gerou um registro em vídeo valioso da maestria com que ambos trabalham o artesanato: Seu Zé nas pequenas canoas e nos remos, e Dona Amélia nas gaiolas decorativas, feitas com a estrutura vegetal da "flexa", um capim muito forte, e as grades de bambu.

Jornada Buzios

Antigamente, as gaiolas eram utilizadas para a captura de passarinhos, que eram vendidos ou até mesmo usados na alimentação dos caiçaras, na época em que faltava o peixe. Seu Zé e Dona Amélia são reservados (ou tímidos) na conversa, um comportamento comum dos caiçaras das comunidades isoladas, de todas as idades. Ainda foi possível registrar o pescador Hilário colocando seus peixes para secar no varal, atividade típica da cultura tradicional caiçara!

Jornada Buzios

Participaram das Oficinas 9 alunos, sendo que um deles está fora da escola pois é muito pequeno. Um está na Educação Infantil, três estudam no Fundamental I, e quatro no Fundamental II. Há mais um aluno do Fundamental II que não estava em Vitória nesse período.

Jornada Buzios

As oficinas de bonecos em Vitória ocorreram da mesma forma que nas demais escolas das comunidades tradicionais, com muita intensidade e disponibilidade de tempo por parte dos alunos e da equipe, uma espécie de imersão. A construção dos bonecos envolveu bastante as crianças, e o fato deles poderem ser usados com a haste (para seu uso no teatro de bonecos), mas também sem a haste, entusiasmou a garotada que os adotou como companheiros de brincadeiras. A participação da comunidade também foi importante no processo, integrando as famílias. Tanto Lídia quanto Dona Nair ajudaram nas oficinas, costurando as roupas dos bonecos.

Jornada Buzios

Nas apresentações das duas Contações de Histórias, os alunos manipularam os bonecos e fizeram as falas de maior impacto na encenação. Emiliano e Agnaldo, um agrônomo que estava na comunidade e se interessou pelas atividades do projeto, ajudaram manipulando personagens e objetos de cena, como o furacão e a toca da santa. A narração foi feita pela Tina com sua sanfoninha.

Jornada Buzios


História 1
O homem que não queria morrer

Tinha um homem que era muito mal humorado, xingava as pessoas, ele não gostava de ninguém, e o resultado é que ninguém gostava dele também. Um dia, estava ele pescando lá no leste quando de repente teve um piripaque e caiu morto. Aí as pessoas o carregaram para casa para fazer o velório, mas enquanto preparavam o café na cozinha ele despertou, e botou todo mundo pra correr.

Jornada Buzios

Noutro dia, ele saiu pra pescar, dessa vez no Ponto do Meio, e sem mais nem menos, caiu morto. Novamente carregaram o corpo dele para fazer o velório, e enquanto faziam o café, o morto voltou à vida e destratou todos que estavam lá.

Quando o desinfeliz saiu pra pescar no Porto, e caiu duro pela terceira vez, as pessoas resolveram deixa-lo lá. No dia seguinte, ao voltarem, viram que o corpo ainda estava no mesmo lugar, frio e duro, então o trouxeram para casa e colocaram no caixão para fazer o velório.

Só que, de repente, um furacão entrou pela casa revirando tudo, e levando pelos ares o defunto em seu caixão, do qual nunca mais ninguém teve notícia.



História 2
A toca da santa

Um homem está pescando e quando olha para uma toca, próxima a ele, vê a imagem de uma santa. Fica impressionado e corre para chamar as pessoas, mas quando elas chegam lá..... a toca está vazia. A comunidade não acredita nele. Então, decepcionado, ele volta a pescar, mas quando olha para a toca, vê novamente a santa. Pouco depois, olha de novo e ela sumiu! Decide então continuar sua pescaria, mas quando vai colocar a isca no anzol fura o dedo e seu sangue cai na santa. Depois disso a santa não sumiu mais, ele olhou várias vezes e ela sempre estava lá. Chamou de novo as pessoas e elas a viram também, e a levaram em cortejo para a Igreja de São Pedro.

Jornada Buzios


Nas apresentações das Contações de História estiveram presentes famílias de todos os alunos. Eventos como esse são raros na Ilha da Vitória, e são muito importantes para promover a socialização da comunidade e o fortalecimento de seus vínculos afetivos e parentais.

O retorno da equipe para Ilhabela também teve suas dificuldades, mais uma vez por conta das condições climáticas adversas. Foi preciso aguardar o momento certo. Durante a Jornada ventou muito, e choveu mais ainda. Sair de barco para filmar a colocação da rede foi o sonho impossível! Mesmo assim, estar novamente com a comunidade da Vitória foi delicioso, e graças à sua generosidade tivemos peixe todo dia para comer. A receptividade que temos nessa comunidade dificilmente será superada na acolhida, uma sensação de estar em casa. Um lugar que sempre deixa saudades!


O Projeto Memórias Reveladas tem o patrocínio de Petrobrás por meio do Programa Petrobras Socioambiental







 

 

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