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Agosto

O mês de agosto começou com as oficinas da Jornada da Escola Mércia do Nascimento Dias, que foram realizadas no Pés no Chão. A turma foi formada por alunos do 6º ao 8ª ano dessa escola, assim como por duas alunas do 5º ano da Escola José Verzegnassi. Ambas fazem oficinas no Pés no Chão e se interessaram em participar da Jornada. Um critério utilizado para a montagem do grupo – que foi acertado junto à coordenação da Escola Mércia - foi o fato dos alunos pertencerem a famílias caiçaras.

A decisão das atividades acontecerem no Pés no Chão se deu porque esses alunos estudam no período da manhã, e de tarde, no prédio do Mércia, estão acontecendo as aulas da Escola Leonardo Reale, uma vez que ela está sendo reformada. Assim, os alunos do projeto foram transportados de van para a entidade logo após o almoço na escola, e levados de volta após as atividades. Antes de ir embora, todos tomaram um lanchinho servido pelo Pés no Chão.

Nas primeiras oficinas, os alunos entraram em contato com a publicação “Cultura Caiçara – Linguajar e Lendas Caiçaras”, realizada pela Fundação Arte e Cultura de Ilhabela. Ela contém um glossário com palavras e termos caiçaras, e além da leitura, os alunos também fizeram desenhos que foram usados na confecção do Jogo de Memória.

O familiar caiçara entrevistado nesta Jornada foi Seu Benedito Barroso, de 82 anos, avô do aluno Pedro, e por coincidência, vizinho do Pés no Chão. Em seu depoimento, ele falou sobre a canoa de voga, cujas histórias ouviu de seu pai, e também sobre os engenhos de cachaça, especialmente o da Praia do Remanso, onde Benedito trabalhou com seu próprio carro de boi e o seu estimado boi, o Nego, que foi personagem da peça.

A memória compartilhada por ele com a equipe virou a contação desta Jornada, inspirada nos engenhos de cachaça que existiram na Ilhabela de antigamente. O primeiro engenho de açúcar foi instalado por Francisco Escobar Ortiz, em 1608. Já a cachaça foi introduzida no começo do século XIX, e com o passar dos anos atingiu 36 engenhos, espalhados por várias partes da ilha. Sua produção foi exportada através de canoas de voga e barcos para Santos, e de lá para diversos pontos do país.

Outro depoimento foi dado por Rodrigo, que é aluno do projeto e também Congueiro.

A questão é que além de cachaça, nossa Contação também celebra São Benedito, pois não foi um Benedito que nos trouxe essa história?

A trama contada e encenada no final da Jornada é mais ou menos assim, e ela se chama São Benedito no tempo dos engenhos da cachaça:

Tudo começa de manhã bem cedinho no Engenho Beira-Mar. Estamos na década de 50.

O capataz da fazenda vê ao longe um grupo de pessoas entrando na propriedade, com um homem de vermelho à frente. Ele parece nervoso. Ao se aproximar, ordena ao capataz que chame seu patrão. O capataz diz que é muito cedo, e que o patrão ainda está recolhido.

Enquanto isso, dentro do casarão, o patrão e sua esposa tomam o café da manhã, mas são interrompidos pelo canoeiro, responsável pelo transporte da cachaça dessa fazenda para Santos. Ele traz péssimas notícias. Simplesmente nenhuma garrafa de cachaça foi comercializada, e houve muitas queixas sobre a qualidade do produto. Dizem que ele estava dando muita dor de cabeça nos consumidores. Todos afirmam que antigamente a cachaça era ótima, mas de uma hora para outra ficou uma porcaria. Agora só querem comprar uma tal de cachaça Sabida.

O patrão ficou encasquetado com essa história, mas ninguém sabia quem era o dono do engenho que produzia essa cachaça misteriosa. A patroa teve chiliques, preocupada com uma possível falência, e para esfriarem a cabeça saíram para dar uma volta na fazenda.

No caminho, dão de cara com o tal grupo com o homem de vermelho, e o capataz, num tremendo impasse.

O patrão se aproxima e resolve tomar pé na situação, pergunta então ao seu funcionário o que está acontecendo. Ele conta que o homem falou que ainda seria dono daquela propriedade, e que queria falar com o patrão, mas não revelou seu nome de jeito nenhum.

O patrão então assume a conversação e pergunta o nome do rapaz, que lhe responde: sou filho de Dona Teresa Oliveira Teixeira. Foi um espanto geral, pois esse era o nome da primeira esposa do patrão, que todos julgavam morta.

Aí, diante de todo mundo, ele se põe a dizer o que sua mãe tinha lhe falado na semana anterior, pouco antes de morrer. Contou que seu pai na realidade não tinha morrido, e que, portanto, não era viúva. Tinha era fugido dele num momento de raiva. Contou-lhe também, o que acontecera 25 anos antes.

Seu pai tinha ficado furioso pelo fato dela ter dado ordens ao capataz com relação ao ponto da cachaça. Teresa tinha consciência de que seu marido não entendia nada sobre isso, e que essa tarefa lhe cabia. Só que ele não aceitou, e disse que quem mandava no Engenho era ele.

Inconformada, resolveu ir embora de canoa para Santos, para quem sabe abrir seu próprio Engenho longe dali. Só que no meio do caminho passou muito mal por causa de um enjoo, e acabou ficando em Caraguatatuba. Uma forte tempestade arrastou a canoa e a levou de volta para Ilhabela, chegando lá toda destroçada. Quando o patrão a viu, se desesperou, concluindo que a esposa fatalmente tinha morrido. Anos depois se casou novamente. A atual patroa estranhou o tal enjoo de Dona Teresa, mas essa dúvida foi justificada de imediato para todos que estavam ali presentes: ela estava grávida!!

Pai e filho se abraçaram emocionados, e o pai falou que tinha se arrependido do que havia falado para Tereza naquela época, pois de fato só ela conhecia o ponto da cachaça.

Mas para quebrar esse clima de emoção, a atual patroa lembra que eles estão falidos!! Aí o patrãozinho conta sua grande surpresa: ele é o dono da cachaça Sabida, e a produz através dos ensinamentos que recebeu da mãe, então está tudo em família!!

Todos se abraçam mais uma vez, e saem para festejar, afinal é dia de São Benedito e tem Congada na Vila! Uma bela cantoria termina nossa história!


     
No decorrer das Oficinas, muita leitura de texto, feitura de bonecos, criação dos objetos de cena, dos cenários, enfeites, figurinos dos bonecos, ensaios....uma trabalheira daquelas!!

No dia das apresentações, tudo foi transportado de van para a Escola Mércia, uma vez que o público estava lá!

Foram cinco apresentações para mais de 140 alunos de 2ª a 6ª série do Fundamental I da Escola Mércia e também Leonardo Reale. Um sucesso!! Além delas, a turma ainda fez uma apresentação no teatro do Pés no Chão para os pequenos alunos do Ensino Infantil da Escola Natã Ugo, e para os familiares do elenco que foram convidados especiais. Parece que a turnê não terminou, ainda terá mais uma apresentação para os alunos da Escola José Verzegnassi.

Antes do fim de agosto a equipe já estava de partida para outra Jornada, dessa vez na Comunidade Tradicional de Castelhanos. Só um 4X4 valente como esse para atravessar a ilha toda, pelo meio da floresta, numa daquelas estradas que só os jipeiros mais corajosos enfrentam. Para completar,,, chuva a vista! Tudo foi coberto com lona.   

 

O Projeto Memórias Reveladas tem o patrocínio de Petrobrás por meio do Programa Petrobras Socioambiental

 

 

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