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Outubro

Os alunos da Escola Leonardo Reale trabalharam bastante. Eles construíram os bonecos que deram vida a uma história bem interessante, que aconteceu há algumas décadas, nos tempos em que ainda existia a salga em Ilhabela.



 

O fuxico da salga

Bom dia minhas senhoras e meus senhores!!!
É com muita satisfação que estamos aqui para contar
um pouco da história do nosso lugar
Agradecemos ao Seu Canico, que é o avô da Raissa,
por ter compartilhado um pouco das suas memórias,
pra gente aqui revelar.

Contou que aqui mesmo, em Ilhabela, lado norte,
num tempo não muito distante,
chegaram pessoas que vieram de longe, muito longe,
do Japão olha só que sorte,
para nos ensinar a tirar o limo e a SECAR o peixe
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Havia cinco Casas de Salga por aqui.
E foi na Salga da Dona Emi, que a mãe do Seu Canico,
e o pai dele também, por muitos anos foram trabalhar
.

Guilhermina: (toc, toc, toc) Bom dia Dona Maria! Tão chamando lá na Salga! Tem que chegar mais cedo hoje que a pesca foi boa e tem muito peixe pra nois limpar.
Maria: Tá certo dona Guilhermina! Agradeço por avisar! Já já to descendo! Pedro, João! Vamo acordá agora mesmo meninos, que a mãe já vai descer pra trabalhar. A dona Emi e o Seu Zé Hirata mandaram chamar mais cedo hoje. Hoje vou me acabar de limpar aqueles peixes.
Filhos Pedro e João: E nós vamos de ter que ir mãe?
Maria: Olha, vocês tem duas opções: ou descem pra praia comigo, ou vão mais pra cima do morro atrás de lenha pro fogão, são vocês que fazem a escolha

E foram as mulheres para limpar o peixe que os homens já tinham pescado. A vida na Salga era assim:
os homens pescavam e as mulheres limpavam e preparavam o peixe pra secar. Um pouco eles secavam no sol, em grandes varais feitos de bambu, e outro pouco eles secavam nos fornos da casa.
A primeira tarefa era limpar o peixe.

Maria: Bom dia senhoras! Mais a pesca foi boa heim?
Guilhermina: Esses nossos maridos são bom de mata peixe né dona Pedrina?
Maria: E não é que são mesmo?
Maria e Pedrina: E por falar de ser bom de fazer as coisas…. Vocês ficaram sabendo?
Maria: Sabendo do que?
Guilhermina: É sobre aquela história lá? Teve novidade é?
Maria: Mas que história que não to sabendo de nada! Vai mulher, conta logo!
Dona Emi: Bom dia senhoras.
As três: Bom dia dona Emi!
Dona Emi: Muito trabalho hoje! Conversa demais atrapalha.
Guilhermina: Claro, Dona Emi.
Maria: A senhora não se preocupe não, viu?
Pedrina: Que nós vamos fazer direitinho o nosso trabalho.
Dona Emi: Vocês são experientes, precisa dar exempro.
As três: Sim senhora
Dona Emi: Certo, então trabalha direitinho que eu vou na casa preparar chá.

Assim que ela sai elas continuam a conversa….

Guilhermina: Vai, conta logo que não me aguento.
Maria: Mas espera que a dona japonesa pode de tá espreitando….

Elas olham para a direção onde foi a D Emi….

Guilhermina: O qual, ela já tá lá prá cozinha.
Pedrina: É tão ligeirinha com esses passinhos. Sabia que lá no Japão...
Guilhermina: Ah, pare de ser abestada mulher!
Maria: E conta logo a novidade! 
Pedrina: O caso é que o Ramirinho
Maria: O qual? Que é que tem meu sobrinho?
Guilhermina: Não tá sabendo de nada?
Maria: Escuta aqui suas linguarudas… não vou admitir que falem mal de Ramirinho!
Pedrina: Quem falou que tamo falando maldade de Ramirinho?
Guilhermina: Schsss…….. Olha lá Seu Hirata!
Seu Hirata: Bom dia senhoras!
Todas: Bom dia Seu Hirata!
Seu Hirata: Que senhoras estão fazendo: Limpando peixe ou falando mentira?
Pedrina: Que é isso Seu Hirata… 
Guilhermina: Ninguém aqui fala mentira não.
Maria: Nesse caso vou ter que concordar com o senhor que elas estavam mesmo….
Guilhermina e Pedrina: Perdeu o juizo é?
Seu Hirata: Eh! Voces tem que parar agora. Olha pescadores tão chegando... 
E então, vindos do mar, os pescadores chegam assustados. Ramirinho se aproxima das mulheres. 
Pescador Ramirinho: Olha minha gente, vamos se abrigar que vai cair uma tribuzana aqui.
Guilhermina: Opa, gente, vamos pegar tudo aqui e se abrigar que vai cai a tempestade e a gente tem que ficar bem quentinho.
Maria: Vamos juntar as crianças que se não elas ficam soltas por aí e vão tomar chuva.
Pedrina: Ah não sei não, acho melhor ficar por aqui mesmo.
Dona Emi: Vamos para de alvoroço, é hora de trabalhar, não ficar papapa ai!
Maria: Mas dona Emi, vai cair uma Tribuzana, as crianças vão se molhar.
Guilhermina: Ai meu Deus, vai cair um raio na cabeça dos meus filhos, eles vão morrer.
Pescador: Calma minha gente, a Tribuzana ainda tá longe, tá atingindo o meio do canal!

E eles se abrigaram, e as crianças foram encontradas e abrigadas também.
E a tribuzana chegou, e foi embora. Passou.
No dia seguinte, todos trabalhando de novo…
e as mulheres limpando e conversando, limpando e conversando.....

Guilhermina:    Que dia ontem heim?
Pedrina:
            Pois é mulher, não deu nem tempo de contar a novidade
Maria:               Não vai dizer que vocês vão falar de Ramirinho de novo!!!
Seu Zé Hirata:  Tão falando mentira de novo?
Dona Emi:       Até eu quero saber qual é a novidade
Pedrina:            Então eu vou contar: Ramirinho pediu a mão de Antoninha!
Todos:               Ah, de Antoninha? (Todos falam ao mesmo tempo)

 


E depois de um mês, deu-se o casamento.
O casório, com padre e tudo, teve uma surpresa.
Pois não é que a Antoninha, toda de branco de véu e grinalda,
não gostou daquela parte que fala “na alegria e na tristeza, na saúde
e na doença, na riqueza e na pobreza...” De repente, cadê a Antoninha?
Pobre Ramirinho.... Abandonado no altar....
Mas essa já é uma outra história. Quem sabe um dia contamos pra vocês?



Escola José Benedito

Em outubro teve mais uma Jornada, dessa vez na Escola José Benedito. A turma teve tantos alunos que foi preciso
dividir em duas. Eles eram um pouco mais novos, então os bonecos, e tudo mais foi ajustado para eles.
É fundamental respeitar não só o grau de desenvolvimento das crianças como suas próprias peculiaridades.
Alguns alunos se dispõem a trabalhar nas oficinas enchendo os bonecos, pintando o rosto, mas sentem-se
muito constrangidos em falar, em virtude da timidez.




Bom dia minhas senhoras e meus senhores, meninas e meninos!
É com grande satisfação que nós, do Pés no Chão,
viemos aqui hoje para contar uma história para vocês.

Mas esta história não contaremos sozinhos!
Temos muita gente boa do nosso lado!
Querem saber quem? A Terceira Série A!!!! E a Terceira Série B!!!!!


A história que vamos contar talvez não seja uma grande novidade
Vocês já devem ter ouvido falar, ou então já viram, quem sabe participaram…
De uma festa muito tradicional na cidade
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A Congada de São Benedito

Esta é uma festa que acontece há mais de 200 anos aqui na nossa cidade. Há 200 anos!!!
É muito tempo!!! Quando essa história começou provavelmente a avó da sua bisavó ainda era uma criança!
E como será que era naquele tempo? Como é que tudo começou?


Isso quem nos contou foi uma senhora que morava aqui pertinho da escola.
Ela já se foi… mas a história que contou prá gente permanece viva na nossa memória.
Alguém aqui conheceu a Dona Izanil?


A Dona Izanil era filha de uma senhora famosa, que deu até nome pra escola aqui na Ilha:
A Dona Eva Esperança!  E a Dona Eva era filha da Dona Benedita, que viveu no tempo da escravidão aqui na Ilha. 


Mas se a dona Benedita era mãe da Dona Eva, e a Dona Eva era mãe da Dona Izanil,
então o que a Dona Benedita era da dona Eva? Avó. 

Benedita: Eva minha filha, vamos se apressar que se a gente não chegar logo hoje os congueiros morrem de fome.
Eva: Certo minha mãe, já tá tudo pronto. Só precisamos de ajuda pra carregar as panelas.
Benedita: Izanil! Izanil!!! Vinde cá minha neta.
Izanil: Que é vovó?
Eva: Vinde cá ajudar a vovó a levar essas coisas lá pra Vila, pra Congada de São Benedito. Temos de preparar a Ucharia, pra alimentar os congueiros e toda gente que vier.
Izanil: Mas é muita coisa vovó!
Eva: Mas é que deve de vir muita gente esse ano minha filha. Desde que seu avô começou essa festa, cada ano vem mais gente. Então vamos lá, vamo se apressar que as panelas têm que ir logo pro fogo!!! Por São Benedito, será que a lenha vai ser suficiente pra alimentar a tacuruba?
Benedita: Sempre dá certo Eva, com a graça de São Benedito. A Ucharia sempre dá certo
Izanil: Por que tem esse nome vovó?
Benedita: É porque é assim que chamam a despensa da casa real lá em Portugal. Ffoi de lá que veio a tradição da Congada.
Eva: Arre lá, então vamo deixa de explicação e vambora que estamos atrasadas!

Ninguém sabe direito como a Congada começou, mas a Dona Izanil contou pra gente
que o marido da Dona Eva, o seu pai, foi o primeiro Rei do Congo e que o pai dele, que
era português, foi quem trouxe festa pra cá. 


E a Congada é assim, como se fosse um teatro que acontece na rua,
e nesse teatro, dois reinos se enfrentam: os mouros e os cristãos, ou os vermelhos e os azuis.
Eles desfilam suas espadas e declamam seus versos por vários dias.

♪♪♪Hoje é nosso dia….♪♪♪

Até que enfim o Rei do Congo descobre que é pai do Embaixador inimigo,
e nesse momento emocionante, decidem conviver em paz e harmonia, respeitando as suas diferenças.

♪♪♪Hoje é nosso dia….♪♪♪

E é nesse clima de paz e alegria, e respeito pelas diferenças, que acontece a Ucharia.
Um grande encontro onde é servida a comida para os congueiros e também para toda a gente que vier. 


A Ucharia é um momento de muita fartura e alegria.

Dona Benedita foi a primeira chefe da Ucharia.
Ela organizava tudo com a ajuda de muitas mulheres e isso virou uma tradição da sua familia. 

Depois dela Dona Eva, e depois Dona Isabel, que era  irmã da dona Izanil. 
E depois foi a vez  da Dona Izanil e assim continua, com suas filhas e netas,
sempre contando com a ajuda de muitas mulheres..


Hoje em dia ainda vem gente de todo lado pra ver a Congada. Os moradores da Ilha e muitos turistas.
Tudo é feito com devoção e alegria. Olha só:


(entram as crianças com os bonequinhos, cada uma com uma pequena fala. Colocam os bonecos na escadaria da igreja)

E a cozinha continua a todo vapor, preparando a comida da Ucharia.
E todos juntos saciam a fome: fome de comida é claro, mas também há outras fomes….


Você tem fome de quê?
Amizade
Liberdade
Alegria
Respeito
Igualdade...

Várias turmas da Escola José Benedito assistiram às apresentações, onde se revezavam a 3ª série A e a 3ª série B. O público interagiu bastante porque a Congada é muito conhecida na ilha, e vários alunos até participam dela!

Pensam que outubro acabou?

Não!! Algo a mais aconteceu nesse mês, mas foi algo que já tinha acontecido antes, lá em agosto.
A turma que participou da Jornada da Escola Mércia embarcou nas apresentações dos alunos da Escola Leonardo Reale, que estavam acontecendo em sua escola.

E não é que eles quiseram contar de novo a História de São Benedito no tempo dos Engenhos de Cachaça? Então, foi assim: depois das três apresentações do Fuxico da Salga, tivemos outras três feitas pela turma do Mércia, todas maravilhosas!!!

 

O Projeto Memórias Reveladas tem o patrocínio de Petrobrás por meio do Programa Petrobras Socioambiental

 

 

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