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Dezembro

Chegar à comunidade tradicional do Bonete é um senhor desafio, pois a entrada de canoa até a praia é uma tarefa para conhecedores da barra no Rio Nema, que se altera a cada chuva ou mudança da maré. O lugar é apreciado por surfistas, e Bonete á considerada uma das mais belas praias do planeta. Todo mundo se apaixona, e concorda que todo esforço para chegar lá vale a pena. A ida para o Bonete em dezembro finalizou o trabalho das Jornadas.

A relação entre a comunidade da praia do Bonete e o Pés no Chão é antiga.  Lá foram apresentados diversos trabalhos de artes cênicas da entidade e de outros grupos artísticos profissionais, que também se interessam pela aventura de levar a arte para lugares com pouco acesso à cultura. Além disso, lá realizamos o documentário “Os Saberes do Fazer - Cultura Caiçara Viva” que contou com o patrocínio do IPHAN/Ministério da Cultura. Durante um ano inteiro visitamos sistematicamente a comunidade para registrar os mais diversos aspectos da cultura local.

Nossa trupe encheu a canoa com seus apetrechos e tomou rumo rapidinho, pois já tinha sido avisada que no dia seguinte o tempo ia virar, e não daria para ir, o que de fato se confirmou.

As oficinas desta Jornada aconteceram na sede Instituto Bonete. Participaram 17 crianças e adolescentes de 3 a 12 anos, e uma portadora de necessidades especiais de 24 anos. Nesta comunidade não foi possível utilizar a escola em função de sua ocupação integral, tanto de manhã quanto de tarde. Por esta razão foi usado o espaço do Instituto Bonete. 

O Instituto Bonete, que tem em sua diretoria o ambientalista Edson Lobato, possui como missão a manutenção da qualidade de vida e da cultura da comunidade tradicional no Bonete. Neste sentido, desenvolve projetos de resgate e valorização da cultura tradicional caiçara e de conservação ambiental. Esta parceria, articulada e consolidada para esta Jornada, deve gerar no futuro o desenvolvimento de outros projetos, tendo em vista a forte identificação entre os propósitos de nossas entidades.

Vídeo produzido pelo Instituto Bonete

Foi uma experiência bem diferente fazer a Jornada fora da escola. Dentro dela já existe uma estrutura pronta, que reúne tradicionalmente nosso público num mesmo ambiente, já do lado de fora tivemos que buscá-lo na comunidade, convidando os alunos e divulgando as atividades em vários lugares, o que gerou uma faixa etária mais ampla, uma vez que tanto os pequenos quanto os grandes se interessaram pela proposta. 

Evidentemente que a convocação provocou um rebuliço na comunidade, e, quase todos que apareceram, acabaram fazendo parte do processo de construção dos bonecos.

Se na escola os horários são disciplinados e disciplinadores, fora dela tivemos que nos adaptar a um sistema de horário mais flexível, pois o tempo, de um modo geral nas comunidades tradicionais, segue outros parâmetros.

No final do processo de construção dos bonecos, todos se sentiram recompensados pelo resultado obtido.

Os entrevistados mais idosos desta Jornada foram Dona Denora e Seu Eugenio.

Eles contaram como era o Bonete de antigamente, as famílias, as atividades e também os causos de assombro, que deram origem a uma das histórias: "O Lobisomem do Bonete".

A outra história, “A onda terrível”, brotou naturalmente, a partir dos próprios alunos. Ela retrata a vida das novas gerações do Bonete, ligada totalmente ao surfe. Este vem ganhando uma importância cada vez maior na comunidade, uma vez que no futuro serão esses jovens que manterão vivos vários aspectos da cultura caiçara, como a lida com a pesca e com o mar. Aqueles meninos das ondas, irão se transformar nos "capitães" das lanchinhas que vêm e vão do Bonete para Ilhabela, levando turistas do mundo inteiro para conhecer um verdadeiro paraíso.

Desde pequenas, as crianças desenvolvem uma intimidade muito grande com o mar. Elas começam brincando com a canoa, aí vão para a prancha pequena, e a prancha vai crescendo junto com a criança. Aos 11 anos já são feras do surfe. Sabem tudo sobre as ondas, e vivem isso diariamente. Os jovens do Bonete são excelentes surfistas, e também conhecem os grandes nomes do surfe nacional e mundial, que acompanham pela internet. 

Para esta encenação, nas oficinas foram feitos bonecos surfistas, com tatuagem, bermuda com etiqueta, prancha, fora as mil pesquisas noturnas da equipe do projeto para fazer o boneco ficar em pé na prancha e com as mãos livres no dia seguinte.

Evidente que nessa peça teve um surfista destemido vencendo uma onda terrível...

Quanto à outra peça, “O Lobisomem do Bonete", ela se baseou num causo que os caiçaras antigos contam para os mais novos, e assim todo mundo sabe a história. Dizem que Seu Aguinaldo até já viu o Bicho, e foi perseguido por ele. Mas ele se escondeu na canoa e se livrou do danado. Esse tal lobisomem adorava roubar os peixes que os caiçaras guardavam no balaio, até que um dia ele caiu numa armadilha e os caiçaras acabaram com sua festa....coitado do lobisomem!
 

Na finalização da Jornada, a comunidade marcou presença no Instituto Bonete para prestigiar o trabalho das crianças. Foi tudo de bom!! Passado e presente de mãos dadas.

Somos gratos aos parceiros que estiveram conosco neste longo processo de realização das Jornadas, principalmente a Secretaria de Educação, e também os caiçaras, que abriram suas portas para compartilhar suas histórias. Com certeza obtivemos um grande aprendizado sobre cultura caiçara, ao qual tivemos acesso de forma privilegiada.

 

Projeto Memórias Reveladas tem o patrocínio de Petrobrás por meio do Programa Petrobras Socioambiental

 

 

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